ASSIM QUE POUSEI NO RIO DE JANEIRO, às 22h30, liguei para ele a fim de saber que horas estar no CEU, Clube Esportivo de Voo de Jacarepaguá. Não queria perder nada na manhã seguinte, 27 de abril. Ops, na madrugada seguinte: “Chego lá às 5h30, porque um flap de um avião quebrou”, me respondeu Luigi Cani. O flap é a lâmina da asa que levanta contra o vento para ajudar a aeronave a subir, descer, “brecar”. Cani, o paraquedista profissional e colunista de nossa seção Mixer Aventura, não é quem daria cabo do conserto. Mas fazia questão de apoiar cada ação, prevista ou não, do time que convocou para concretizar mais um sonho. Traço de um líder sério. Para ser um porralouca de êxito, você não pode ser porra-louca por completo.

Precisa de dedicação incansável, desenvolver alta sanidade emocional e física. Deve ter humildade, respeito e esmero de sobra. Só com isso triunfa em ousadias e/ou projetos, digamos, incomuns. Desta vez, a ambição de Cani era saltar de um avião em movimento para entrar em outro avião, sem porta, em pleno voo. Referência mundial em esportes radicais, o paranaense de Curitiba, de 39 anos, não usaria wing suit (roupa com asa) nem abriria paraquedas. Mais: as duas aeronaves decolariam juntas e, quando lado a lado atingissem 12 500 pés, ou 3 800 metros, a sem porta entraria num mergulho, ângulo de 90 graus com o chão – bico apontado à terra, motor desligado, cauda sustentada apenas por um drouge (miniparaquedas) que manteria a descida dessa aeronave em 200 km/h.

Quando ela estivesse 300 metros abaixo do avião que levava Cani, ele deveria pular para alcançá-la. O corpo pontuaria cerca de 300 km/h e teria perto de 30 segundos para bater o desafio! Aí, a dupla que comandava o avião sem porta também precisaria ser impecavelmente veloz: antes de estar a cerca de 1 524 metros do solo e já com Cani a bordo, sua tarefa era se livrar do drouge, ligar o motor e voltar à horizontal para pousar. Do contrário, se arriscaria a topar com o chão…

DESCONTRAÇÃO PARA (CON)CENTRAR

Meu pavor ao descobrir essa última possibilidade foi substituído por surpresa logo que – umas 7h30 e flap novo – entramos na sala vidrada do CEU, que hospedava roupas, computadores e outros equipamentos de suporte. Ali, a missão inédita no Brasil ganhava atmosfera inacreditavelmente simplória. Pilotos, técnicos e outros do estafe de Cani versavam sobre minúcias do desafio com tom de quem comenta partidas do Brasileirão. Ou novidades da família. “Esse aqui é o João Paulo, piloto. Hoje, ele soube que vai ser pai!”, me disse Cani. “E esse é o João Tambor, o paraquedista que vai voar atrás de mim para fazer imagens.” A tensão relativa do ar parecia zero! Pensei se ele tinha deixado para outro dia a ansiedade de consagrar mais uma vez a história do céu verde-amarelo. Estava errada: “Logo vai rolar! Também já acertamos o drouge que fez o salto de ontem falhar”. Aí, mesmo apreensiva para saber se alguém se machucara, confirmei: forçar o cérebro a relaxar, provocar momentos de descontração, é essencial em todo trabalho difícil e não só para aliviar tensão. Isso também ajuda uma equipe a ganhar entrosamento, conforto e desenvoltura para manter gana até sob condições adversas – teste frustrado é regra para time que inova… No dia anterior, esses caras de bom humor, e outras cerca de 70 pessoas envolvidas há um ano na produção do projeto Air Transfer, viram a primeira tentativa fracassar. Cani contava que o avião sem porta mergulhara muito rápido, 240 km/h. O piloto não conseguiu mantê-lo em exatos 90 graus com a terra; oscilou entre isso e 70 graus; Cani não teve como entrar. Abriu o paraquedas, enquanto a aeronave voltava à horizontal para aterrissar. Alívio: ninguém ferido.

SIMPLICIDADE EM MENTE

“Cani, nós conseguimos aumentar o tamanho do drouge em 25%”, interveio Scott Christensen. Estava com 1,4 m de diâmetro e agora deixamos com 1,75 m.” O americano de 44 anos, que mora na Califórnia, era o cara responsável por escolher os equipamentos perfeitos para a odisseia, inclusive os aviões. Cani então me levou para também conhecer as aeronaves. O receio me tomou de novo.

Eram monomotores e a distância que havia entre a asa deles e o chão tinha somente uns 5 cm a mais do que eu (meço 1,71 m): os aviões pareciam de brinquedo! Eu imaginava que o intrincado malabarismo aéreo demandaria máquinas high-tech, acionadas por vários comandos supermirabolantes. Mas Scott tinha decidido escalar os Cessna 182 para a missão justamente por causa da simplicidade – você não pode esquecê-la no momento em que for traçar um caminho para resolver complexidades: “Dá para tirar a porta facilmente e os Cessna são relativamente leves [pesam cerca de 1 500 kg], o que ajuda bastante o trabalho do drouge”, ele explicou quando voltamos à sala vidrada.

EQUIPE: MAIS SABERES, MAIS SEGURANÇA

Era entrar ali, meus temores sumiam! A observação de Scott levou minha atenção a outro fato: aqueles “malucos” eram muito “com noção”! Ou: conhecimento técnico e profundo é pilar da segurança, da confiança em si e no outro. Cani forma seus times só com experts. “Sempre procuro os melhores que estão disponíveis a participar.” O Air Transfer não seria mesmo possível apenas com a alta qualificação física, técnica e psicológica que ele tinha – e já me fazia achá-lo mais lúcido que a maioria de meus amigos…

“Tudo que faço envolve o conhecimento de uma vida dedicada de profissionais diferentes”, contou. Além dele, Scott, João Paulo Penteado, 34, e João Tambor, 37, estavam na sala vidrada: Troy Hartman, americano, 38, às em acrobacia aérea, treinou Cani para o salto; Antonio Júnior, engenheiro de aviação, 41, coordenou manutenções; e Marcos Martinez, 45. Quando um deles gritou “Tudo pronto! Vam’bora!”, a sensação era a certeza de que o final da história seria sensacional. Conhecimento técnico e profundo também é pilar da superação.

MEDITE O PASSADO

Outro é a inteligência emocional para bater o estresse trazido por uma chuva de imprevistos – parte da função e combustível do folclore de toda investida ousada… Cinco saltos estavam programados: 7h, 9h, 11h, 12h. Já era perto das 8h30, quando Cani vestiu o macacão vermelho com que costuma marcar céus do planeta. Nas costas, a inscrição “The Brazilian Speed Freak” (li “o brasileiro maluco por velocidade”) e mais de 10 mil saltos; recordes mundiais como o de velocidade em queda livre: 552 km/h; pioneirismos como o voo de wing suit rente à estátua do Cristo Redentor (Rio de Janeiro). Era hora de fazer história outra vez. Sala vidrada vazia, todo mundo na lateral da pista do CEU. Condições climáticas perfeitas: adrenalina rolando solta, 28 graus, vento nulo, pressão atmosférica normal. “O céu está cavok!”, gritou Marcelo de Miranda, controlador de voo do Clube, no rádio da torre onde subi logo que acionaram os motores.

Frente à minha cara de interrogação, ele se adiantou, rindo: “Significa Ceiling & Visibility Ok [Teto e Visibilidade Perfeitos].” Aeronaves no ar. Cinco minutos depois, no chão de novo. Voltei à pista.

“Sempre procuro os melhores que estão disponíveis a participar. Tudo o que faço envolve o conhecimento de uma vida dedicada de profissionais diferentes”

Logo que embarcou na última tentativa de realizar o Air Transfer, Cani dormiu. A gigante energia que usou para controlar estresse e ansiedade – própria e da equipe – virou sono profundo quando o avião decolou. Cani só despertou 3 800 metros depois, piloto dizendo: “Ei, cara, é hora!” O sonhador estava pronto. “Fiquei tão relaxado que tive certeza de que ia rolar!”, disse ele. Aí usou a calma para focar, mente e corpo, 100% no deverà frente. “Com um pé na porta do avião e outro na roda dele, prestes a saltar, me desliguei de tudo: paisagem, sensação de liberdade, apreensão…”

Assim, voou. Como superherói. Levou o corpo a mais de 300 km/h para perseguir a aeronave em mergulho. Perto dela, “brecou” o peso no ar para emparelhar a 200 km/h. Então fez a manobra, só que errada: bateu as mãos na asa e foi jogado para trás. Mas aí conseguiu agarrar a porta do avião. Determinou-se: “Daqui não saio nem a pau! Vou entrar de qualquer jeito”. Dito e feito: venceu!

“O avião começou a vazar óleo”, explicava o piloto João. Não havia Cessna reserva e o concerto se prolongava. O estresse apareceu. Mas não desestabilizou. Numa garagem, Cani deitava no banco de uma moto, assobiando, olhos fechados, mãos entrelaçadas. O que fazia? Lembrei do que me contara uma vez: “Nunca consegui meditar, minha mente não para um segundo”. Usava outra fórmula para driblar a ameaça de desespero. “O que faço é voltar ao passado: fico lembrando como agi em situações superdifíceis que no final deram certo.” Do lado de fora, sentei para também renovar energias.

SUSTENTE A TRANQUILIDADE

Cani passou por mim correndo quando… “Tudo pronto! Vam’bora!” Motores ligados. Por pouco tempo. Imprevisto da vez: problemas com o rádio da torre. Cani da vez: o mesmo, mestre em autocontrole. “Estou angustiado”, desabafou, sem altura ou violência na voz. “O tempo está passando, hoje é a única chance para finalizar esse projeto, porque envolve muito dinheiro, a rotina de dezenas de pessoas”, completou com toda a calma do mundo – o Air Transfer foi patrocinado pelo Caldeirão do Huck, programa da Globo, e pela TNT, bebida energética. Então me lembrei de outra coisa que me contara: “Durante o trabalho para conseguir algo que quer muito, você precisa controlar impulsos, como o estourar com alguém”. A forma com que fala, pede coisas, critica, desabafa, incentiva, deixa você mais perto, ou não, da conquista. Era pouco mais das 12h quando… “Tudo pronto! Vam’bora!” Só que o desafio tinha aumentado.

O primeiro salto do dia, segundo teste do projeto, virara a hora H. O vento nordeste mudava para sudeste, piorando o clima de Jacarepaguá. “O céu vai ficar CB”, me olhou Miranda na torre de controle. Riu de novo e adiantou: “Cumulus nimbus, ali no horizonte: nuvens carregadas de gelo, chuva, eletromagnetismo”. Ou a tropa de elite fazia o Air Transfer agora ou sonho cancelado…

PAIXÃO É O GÁS

Cerca de 40 minutos se passaram e… todos eram, literalmente, puro êxtase! “Estou no topo do mundo!”, vibrava Troy. Yeah! A tropa de elite vencera, história feita: Cani voou de um avião a outro sem abrir paraquedas. “A sensação é a de estar vivendo minha vida ao máximo”, disse. “Meu sentido é materializar meus sonhos. E mostrar a um monte de gente para inspirar mais pessoas a também correr, ou voar, atrás do que sonham!” Logo que a adrenalina coletiva virou fome, sentamos para almoçar. Pedi para Cani esmiuçar mais aquele “materializar meus sonhos.” Ele contou que desenvolveu aptidão para explorar o potencial comercial de suas ideias, em cursos relacionados a criação e marketing que fez depois de largar as faculdades de administração e economia.

Há mais de dez anos, o paraquedista vive de vender “maluquices” a canais de TV. Também perguntei a ele sobre o trabalho corporal que lhe rende força e agilidade para controlar o corpo a 300 km/h – e entrar pela porta de um avião em queda! Em rotina normal, ou seja, na entressafra de gravações, Cani treina de quatro a seis horas por dia em Los Angeles, onde mora: faz power ioga, ginástica olímpica, saltos ornamentais junto ao time olímpico dos EUA, musculação, corrida. “Tem gente que fala: ‘Ah, aos 20 anos conseguia fazer aquilo’. Eu faço mais com 39 que com 20!”, brincou. O cara que tem a superação como motor da vida se joga nas experiências. “Mas, quando estou prestes a executar uma novidade, sinto muito medo. A capacidade de administrá-lo é uma coisa que também me dá prazer.”

Dick Rutan, engenheiro de aviação da Scaled e da cápsula para Cani fazer outro  sonho real

LUSTRE SEU DOM

Um talento que ele descobriu na adolescência ao saltar de paraquedas pela primeira vez. E que soube lapidar. Um dom não rende trabalho se não for transformado em habilidade crescente. Isso permite a Cani voar, sem nunca quebrar um osso, cada vez mais alto. De sonho em sonho.

Em outubro, ele fará na Califórnia – e só com o corpo! – um voo de formação com um jato russo de 10 toneladas. Em 2012, Cani entrará numa cápsula da Scaled, empresa americana de engenharia aérea, que será levada a 135 mil pés de Brasília. Aí saltará para ver a curvatura do planeta em velocidade supersônica, 1 567 km/h (MACH 1.2), sendo o primeiro cara a romper a barreira do som com o corpo!

Despedi-me: era adrenalina demais num dia. Mas, no avião rumo a São Paulo, ela voltou. Enquanto eu tentava administrar meu medo de turbulências causadas por uma “tempestade em iminência”, avisara o piloto, uma frase que Cani gosta de dizer dominou minha mente: “Se você nunca arrisca, está arriscando muito mais”. Você supera seus limites ao experimentar, se aventurar. Desde que nesse movimento – no ar, na água, na frente do computador, onde quiser – seja um cara pé no chão.