Entrou para a minha empresa, alguns anos atrás, um sujeito vindo de outro grupo cuja cultura era totalmente diferente da nossa. A dele era arrogante, direta, detestável. Ficou famosa pelos executivos que chegavam, diziam onde você estava errado e então encerravam a carreira com a gente. Leonard vinha desse planeta alienígena para um cargo de planejamento estratégico de alto escalão na nossa companhia. Mal havia chegado, foi participar de uma grande reunião sobre possíveis aquisições. Na discussão, também estariam presentes um bando de VPs e nosso então CEO (Chief Executive Officer), Mark, de jeito quietão, meio indecifrável e indeciso. A gente raramente sabia o que ele estava pensando. O Leonard mudou isso. O novo executivo chegou à reunião de gravata e terno pretos – nada a ver com o visual do resto de nós. Mas ok, ele era novo. Sentou-se em uma cadeira bem visível, perto da cabeceira da comprida mesa, num lugar geralmente ocupado pelo consultor jurídico que, meio confuso e desapontado, acabou pegando o assento vizinho.
Mark começou um de seus discursos sobre crescimento a partir de boa gestão interna e aquisições inteligentes – aquele papo de sempre que não dizia muito, mas era o jeito dele de avisar que não estava dormindo. Isso é importante, às vezes. Foi aí que Leonard, com a postura toda ereta na cadeira e tamborilando o bloquinho com a caneta de 500 dólares, falou – e encerrou a carreira conosco.

“Vocês não têm ideia do que estão fazendo nesse assunto”, disse num tom meio científico. “As fusões e as aquisições aparecem de forma totalmente casual e aleatória”, continuou enquanto olhávamos boquiabertos. Não que o que ele estava dizendo fosse falso. Mas quem é que fala assim na frente do Mark? “Temos de derrubar toda essa operação de fusão   e começar do zero”, concluiu Leonard recostando-se na cadeira, todo satisfeito.

A reunião não durou muito depois disso. Nosso presidente chegou perto do CEO e perguntou: “E aí, Mark, o que você acha do rapaz novo?” Mark respondeu naquela placidez de sempre: “Ah, claro que ele é brilhante, capaz e tudo. Só não quero vê-lo nunca mais. Não quero vê-lo em nenhuma reunião na qual eu esteja presente. Se ele estiver em uma delas, eu saio.” E foi calmamente embora. Uma semana depois, Leonard já era.

Eis um exemplo extremo de um fenômeno dos mais comuns: sujeitos que não conseguem ler uma cultura e, por isso, não entram em sintonia com os colegas e os empregadores. É uma pena quando isso acontece, porque não é tão difícil se enturmar. Você apenas tem que seguir um punhado de regras simples…

Meça seus comentários

Às vezes, a ansiedade no trabalho causa língua solta. Ninguém já se deu mal por ficar pensativo e reservado em uma reunião aberta. Em geral, todo mundo respeita um homem que irradia vontade de aprender as regras com um silêncio atento. Claro, você precisa falar quando apropriado, mas reprima a tendência a tagarelar com eloquência, mesmo achando que isso faz bem para sua imagem. É perigoso.

Por outro lado, reserva também tem limites. Temos um chefe de divisão aqui na empresa que é o alvo frequente das piadas de happy hour. O sujeito simplesmente senta-se como uma estátua nas reuniões, e faz mais ou menos um ano que ele não abre a boca. Isso não é ser taciturno. É idiotice. Temos um gerente júnior que ainda é novo aqui e está indo no rumo certo. Ele entrou há menos de um ano. Não falou muito durante alguns meses. Só fazia o trabalho dele, e fazia bem. Depois de um tempo, começou a aparecer na minha sala e na de outras pessoas, para conversar e oferecer ideias. Em reuniões de equipe,
ele se sentava nas beiradas. Mas há alguns meses, passou a abrir o bico, e nada do que diz é bobagem. Algumas coisas até impressionam. Agora, quando o vejo, geralmente paro para pedir opinião. Um dia, posso acabar trabalhando para ele.

Encontre os inimigos

Você deve ser capaz de identificar quem são os bons e quem são os verdadeiros FDPs. Saber lidar com essa diferença pode ser sua escada – ou seu tombo (veja no próximo item). Aqui está o que você precisa para fazer uma boa seleção.
• Os canalhas não olham nos olhos quando falam com você. Os amigos, sim.
• Os amigos tocam seu ombro ou cotovelo ao dizer “oi” ou “tchau”.
• Os canalhas deixam você rendido numa reunião aberta. Se algo dá errado, ele diz: “Pô, cara, por que não alertou a gente sobre isso?” E você não pode responder. Nunca enfrente um babaca poderoso sem ter as armas. Faça isso mais tarde. Muito mais tarde, se necessário.
• Os amigos cuidam de você e nunca vão humilhá-lo, mesmo que esteja exposto e fraco, pronto para ser esmagado. Se eu tivesse de escolher uma habilidade básica entre todas que os sobreviventes têm, seria a seguinte: saber diferenciar os amigos dos inimigos; os amigos em potencial dos inimigos em potencial; e os futuros inimigos permanentes dos futuros amigos que antes eram inimigos.

Saiba brigar

Profissão é estresse. As pessoas discutem. Cuide para que suas discussões não o deixem cara a cara com alguém mais poderoso do que você. Não muito tempo atrás, conheci algumas pessoas em uma empresa dirigida por um CEO bem tranquilo e informal. Ele trabalhava com um braço direito que, além de relativamente novo na companhia, era um belo de um encrenqueiro. Depois de um tempo, os dois começaram a se estranhar.  O CEO decidiu que era hora de colocar o subordinado para fora. Reuniu os funcionários – declarou guerra – e todos os comentários anunciavam a morte
do subordinado. Então, eles foram ao Conselho… E o Conselho apoiou o ex-braço direito. O número 2 virou número 1. O número 1 virou número 0.
Já perdi a conta de quantas vezes arranjei uma briga quando não deveria
e saí com alguma parte importante do corpo na tipoia. Pense como um advogado: em uma audiência, ele nunca faz uma pergunta cuja resposta já não saiba. Não arranje brigas sem ter certeza de poder ganhar.

Mostre humildade

Essa estratégia deve se basear na autodisposição para subordinar bem sua enorme e exuberante personalidade, até que estabeleça uma base de poder. Depois, você pode ser dramático, e o quanto quiser. No começo, não tanto. Você pode pensar que as pessoas ficam muito impressionadas com seu cérebro incandescente e sua superdisposição para o poder. Elas não ficam. Aliás, o mais provável é que fiquem irritadas com isso.

O que elas gostam mesmo é de modéstia, charme e simpatia. Mesmo que você não seja uma pessoa humilde, aja como se fosse até estar suficientemente estabelecido para ser você mesmo. Mostre-se interessado no que os outros têm a dizer, mesmo quando você não está. Tolere os bobos na boa. Fale bem dos outros, mesmo quando a fábrica de fofocas corporativas estiver a toda.

Estude os padrões

Existe mais um equilíbrio difícil que você tem que conquistar de imediato: não deve nem fazer de menos, nem se esmerar e ser um nerd puxa-saco que todo mundo odeia. Preste atenção no horário em que os outros chegam de manhã, quais os ciclos de um projeto e a duração típica dele. Descubra quem fica até mais tarde, e por quê. Sempre haverá gente se matando na hora extra para garantir que tudo saia nos trinques. Pode ser uma boa juntar-se a esse povo, porque geralmente ele precisa de ajuda e sabe apreciá-la.

Encontre seu canto

Logo vai notar falhas na infraestrutura que você mesmo pode preencher. Meu amigo McWhorter é consultor – Deus o perdoe. Até pouco tempo atrás, ele mudava de uma consultoria predatória e desalmada para outra, sempre procurando maneiras mais eficientes e criativas de demitir gente e colocar os poucos sobreviventes para fazer o trabalho antes realizado por muitos. Simplificando, McWhorter trabalhava com (e para) um bando de vilões.Porém, em uma organização, ele notou que ninguém se interessava muito em ir a Toledo (Ohio, EUA), embora a empresa tivesse um cliente grande por lá. McWhorter então se ofereceu para cuidar daquela conta, foi e teve êxito. O chefe pensou que ele fosse maluco e hoje até contam piadas sobre McWhorter na empresa – “Ele é o cara disposto a ir a Toledo no inverno! Ah, ah, ah!” Mas esse é o tipo de brincadeira que indica sucesso, meu caro.

Divirta-se um pouco

Em toda empresa, há pessoas que gostam de comer, beber, ser felizes e fazer de conta que estamos neste planeta para desfrutar a vida, em vez de esmagar opositores. Eu gosto de sair com essas figuras. Foi assim que fiquei conhecendo nosso ex-diretor de RH. Ele era o sujeito que ficava no bar até fechar. A gente se divertiu muito. Gostei especialmente quando ele salvou minha pele na grande reorganização de 2003.

Matéria publicada na revista Men’s Health de fevereiro de 2012.