Você pode ter 20 ou 50 anos, não importa. Certamente já ouviu – e curtiu – algo do Led Zeppelin, Queen, Deep Purple, Black Sabbath ou outras bandas do chamado período de ouro do hard rock (final dos anos 60 e grande parte da década de 70). Hoje, esse som é conhecido como classic rock. E se existe algo que une gerações é ele. Pais (e até avôs) que viveram a época – e “dormiram no sleeping bag” – hoje ouvem Led Zeppelin e Jethro Tull como uma volta à zona de conforto das memórias afetivas musicais. Filhos (e netos) ouvem Queen e Deep Purple porque percebem
a vibração original que descambou para muitas imitações. A maioria, baratas.

Algumas das canções da “era clássica” viraram quase hinos. Outras passaram batido. Algumas das letras dessa época foram classificadas como simples pirações de uma geração que tomava todas. Décadas depois, alguns versos estão cada vez mais atuais ou ganharam nova leitura. São mais profundos e instigantes do que parecem. Se você ainda não se ligou neles, chega mais…

 

Pink Floyd

Money

Money, get away
Get a good job with good pay and you’re okay
Money, it’s a gas
Grab that cash with both hands and make a stash
New car, caviar, four star daydream,
Think I’ll buy me a football team

 

Por que você não deu bola?
“Dinheiro, cai fora. Tenha um bom trabalho com um bom salário e você está ok. Dinheiro é um gás. Agarre essa grana com as duas mãos e esconda bem. Carro novo, caviar, devaneios de luxo. Acho que vou comprar um time de futebol.” É muito fácil falar mal de dinheiro sendo um rock star. A música foi um hit e ironicamente deve ter rendido milhões para Roger Waters. Sonzaço, mas não dá para levar a sério um “protesto” desses.

Por que você precisa ouvir isso direito?
Porque dinheiro é sempre uma boa fonte de reflexão. Cada ser humano que renega dinheiro deveria entender que grana é uma ferramenta poderosa. Que serve para fazer boas ou más coisas. Quem liga dinheiro a carrões, caviar e outras formas de exibicionismo (quando carrões e caviar são apenas exibicionismo) é fútil. O problema é da futilidade, não do dinheiro. Vale lembrar: carrões também são legais e caviar, bem, há quem curta.

A palavra do especialista
“A segurança e a felicidade que o homem busca não estão no poder e no dinheiro. Ambos podem representar valores, seja na realização seja na gratificação pelos esforços e conquistas de uma pessoa. Porém, o valor real está em fortalecer a essência de quem somos, do sujeito para quem o dinheiro pode estar a seu uso. Se invertemos essa relação e passamos a ser escravos desse dinheiro, viciados na sua obtenção, então ele passa a ser o sujeito e valor do indivíduo, e sua qualidade de vida decresce”, diz o rabino Nilton Bonder, autor de A Cabala do Dinheiro (Ed. Rocco, 155 págs.). “O dinheiro não é o inimigo, nós somos o inimigo. Dinheiro pode significar engajamento com projetos, dons e ter o incrível benefício de oferecer possibilidades para si e para outros a sua volta. Porém, ele é um instrumento e funciona como um recurso, não como um sujeito. Se eu vivo para o dinheiro, então ele é o sujeito de minha existência. Se, ao contrário, o dinheiro vive para me possibilitar oportunidades – sempre mediado pela qualidade e pelo respeito ao meu ser –, então ele realmente possui valor.”

 

The Who

My Generation

People try to put us down
Just because we get around
Things they do look awful cold
I hope I die before I get old

Por que você não deu bola?
Uma das mais emblemáticas letras sobre juventude. Alguns acham que é uma das mais estúpidas também. Foi escrita pelo guitarrista e líder do The Who, Pete Townshend, quando tinha só 20 anos, o que explica muita coisa. Sua primeira estrofe, numa tradução muito livre, diz: “As pessoas tentam nos detonar só porque a gente está na parada. As coisas que elas fazem parecem tão sem vida. Eu espero morrer antes de ficar velho”. Ok, os tempos mudaram. Os velhos de ontem são jovens hoje – Townshend falava de gente de 40/50 anos, que na Inglaterra da época tinha astral de octogenários conservadores. Tomada ao pé da letra, a estrofe pode hoje parecer a mais idiota da história. Mas para quem é bem jovem, “velhos” podem ser a pior forma de vida no planeta. Perdem os cabelos, ficam gordos. Perdem energia. Viram malas. E Townshend repete: “Estou só falando da minha geração”. Essa diferença entre gerações era um abismo em 1965, quando foi composta.

Por que você precisa ouvir isso direito?
Porque ficar velho não tem a ver com ter 40, 50 ou 60 anos. Ficar velho significa desistir da vida, enferrujar, ficar rabugento, não aceitar mudanças. E isso não precisa acontecer necessariamente antes dos 110. Aliás, a rebeldia niilista – “Espero morrer antes de ficar velho” – também não precisa ser tomada literalmente. A ideia aqui é a não aceitação do status quo, das verdades absolutas, da continuidade dos velhos padrões. E essa recusa ao imutável deve ser radical. Só assim não envelhecemos.

 

Alice Cooper

School’s Out

School’s out for summer / School’s out forever / School’s been blown to pieces / No more pencils / No more books / No more teacher’s dirty looks / Out for summer / Out till fall /We might not go back at all

Por que você não deu bola?
Alice Cooper surgiu no início dos anos 1970 como um artista “planejado para chocar”. Ele transformava seus shows em filmes de terror barato. Fazia músicas sobre bebês de um bilhão de dólares e sobre o “músculo do amor”. Quando School’s Out virou um hit, todo mundo pensou: “É só mais uma piada suja da tia Alice”. Cooper disse que se baseou nos dois melhores momentos da infância de qualquer um: um é a manhã de Natal, e o outro, os três minutos antes do final
da última aula do ano letivo. Cooper cria uma fantasia irresistível de férias que jamais irão terminar: “Fora da escola para o verão, fora da escola para sempre. A escola explodiu em pedaços. Chega de lápis, chega de livros, chega
de olhares sacanas dos professores”. Hoje é politicamente correto dizer que “educação é tudo”, e outras generalidades. Claro que todos devem ir à escola, mas isso não é fácil de defender junto aos maiores interessados, nossos filhos. Especialmente num sistema educacional com graves problemas como o nosso.

Por que você precisa ouvir isso direito?
Porque “fora da escola” não quer dizer necessariamente “sem educação”. Por mais que os pedagogos defendam a própria classe, hoje vivemos a idade de ouro do autoconhecimento. (Leia-se: internet). É certo que temos que ir à escola do primeiro ao último ano de faculdade. Essa experiência é obrigatória para todos. Mas quem se limita à vida acadêmica se tranca na torre de marfim. A vida e o conhecimento estão fora da escola. Para sempre.

Led Zeppelin

Good Times, Bad Times

In the days of my youth
I was told what it means to be a man
Now I’ve reached that age
I’ve tried to do all those things
The best I can
No matter how I try
I find my way into the same old jam
Good times, bad times
You know I had my share

Por que você não deu bola?
Porque o resto da letra de Robert Plant e Jimmy Page é uma daquelas declarações de amor bruto que faria parte da fama do Led Zep. Mas esse início parece pertencer a outra canção. Começa com uma declaração de idade: “Na minha juventude, me ensinaram o que significava ser um homem. Agora que eu cheguei nessa idade, estou tentando fazer todas essas coisas da melhor maneira”. É curiosa essa declaração de maturidade quando a gente descobre que Page tinha 25 anos, e Plant, 21. A música foi a primeira faixa do primeiro LP do Led Zeppelin, em 1969. “Não importa o quanto tento, sempre acabo entrando na mesma velha confusão.” E termina, como se fosse dita por um homem maduro olhando para trás: “Bons tempos, maus tempos, você sabe que eu já tive a minha parcela”.

Por que você precisa ouvir isso direito?
É incrível que o Led começasse sua carreira com uma canção que poderia ser a última, como um balanço de vida. A cultura do classic rock é uma exaltação de êxtases, excessos e glória. Em Good Times Bad Times, eles falam de uma grande verdade: na vida, todos temos nossa quota de bons e maus momentos. A vida deles só confirma isso. Page enfrentou o alcoolismo, Plant viveu tragédias na família, Jones foi da glória ao esquecimento. E John Bonham morreu após 40 doses de vodca em 24 horas.

A palavra do nosso especialista
“Se a gente não passa por situações que nos botem para baixo, não há aprendizado. Por isso, é preciso saber o que é possível levar delas. Uma boa saída é tomar como exemplo outros casos: afinal, quantas pessoas podem ter sofrido muito mais do que você?”, diz Marina Vasconcellos, psicóloga e professora do curso de Psicologia Médica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). “Exceto em situações extremas em que você não tem culpa do ocorrido, como um acidente, é preciso entender qual sua participação no que aconteceu. Num fim de relacionamento, por exemplo, é necessário parar e pensar no que você fez ou deixou de fazer para que ele terminasse.” É isso. Não há crescimento sem experiência real. E elas podem ser boas ou más.

 

Crosby, Stills & Nash

Teach Your Children

Teach your
children well
Their father’s hell did slowly go by
And feed them on your dreams
The one they picked
The one you’re known by

Por que você não deu bola?
Provavelmente por preconceito. “Papo de hippie.” O mundo de 2012 anda meio cínico, meio niilista. É moderno pensar algo do tipo “não vou encher o saco do meu filho, ele que siga seu caminho e terá meu apoio”. Parece uma posição despojada. Um modelo de amor incondicional. Com essa posição, pais podem evitar a opressão da qual eventualmente foram vítimas na infância. Mas poderia ser uma declaração de omissão.

Por que precisa ouvir direito?
Essa letra de Graham Nash é dos mais tocantes e conselhos aos pais. Foi escrita, sim, por e para hippies. (“Você, que está na estrada…”). Mas é universal: “Ensine seus filhos bem / O inferno dos pais lentamente se vai / E os alimente com seus sonhos / O sonho que eles escolherem / O sonho pelo qual você é conhecido.” A outra opção, como diz a letra, é herdar a eles nosso inferno pessoal. Aí separe uma grana em terapia para seus filhos.

 

Steppenwolf

Move Over

Everyone here knows your fear
You’re out of touch and you try too much
Yesterday’s glory won’t help us today
You wanna retire?
Get out of the way
Don’t make me pay for your mistakes
I have to pay my own
I ain’t got much time
The young ones close behind
I can’t wait in line

Por que você não deu bola?
Do Steppenwolf, as rádios de rock só tocam Born to be Wild. Move Over é uma das muitas músicas políticas de John Kay. Ele fala com o presidente dos EUA, mas poderia ser com o chefe: “Todo mundo conhece seu medo. Você está fora da realidade, por mais que tente. As glórias do passado não vão nos ajudar agora. Você não quer se aposentar? Saia do caminho. Não me faça pagar pelos seus erros, eu já tenho os meus para ajustar. Não tenho muito mais tempo, os mais jovens já estão na minha cola, não posso esperar na fila”.

Por que precisa ouvir direito?
Porque a questão vai seguir você pela vida toda. A letra é precisa. Num momento você está surfando no seu prestígio, tempo depois tem um jovem de olho no seu posto. Agora, você é o rei da jogada, então “vive das glórias do passado”. Mas um detalhe não é lembrado por Kay (não tinha 25 anos quando compôs a letra). Às vezes, o “velho” sabe mesmo muito mais que o “jovem”. É mais atualizado e melhor preparado que o garotão sem experiência ou conteúdo. Juventude não é nenhuma garantia de renovação e avanço.

 

Frank Zappa

Broken Hearts are for Assholes

Some of you might not agree
‘Cause you probably
like a lot of misery
But think a while
and you will see…
Broken hearts are for assholes
Maybe you think you’re
a lonely guy
And maybe you think you’re
too tough to cry

Por que você não deu bola?
Porque o Zappa era “maluco”. Ele gozava de
todo mundo, gays e heteros, republicanos e democratas, homens e mulheres, judeus e católicos. Ali estava um homem que nunca escreveu uma única música sentimental em toda a sua vida. (Escreveu uma, na verdade). Frank Zappa queria ofender todo mundo o tempo todo.

Por que você precisa ouvir isso direito?
Quem diz essas coisas não entendeu Frank Zappa. É uma figura única, complexa o suficiente para muitas leituras. “Alguns de vocês podem não acreditar, porque provavelmente gostam de passar mal. Mas pense um pouco e verá que corações partidos são para os bundões.” E acrescenta um toque extra de sarcasmo: “Talvez você seja um cara solitário. Talvez seja duro demais para chorar”. Mas a mensagem principal é repetida como um mantra: “Corações partidos são para bundões, e você é um bundão”. Corações partidos eram o combustível de poetas suicidas do século 19. No século 21, isso não se justifica mais. Gostou de alguém? Tente. Não conseguiu? Tente de outro jeito. Ela não quer saber? Sofra um pouco e parta pra outra. Curtir paixões impossíveis é sintoma de coisa ruim. Muitos crimes são cometidos por gente com coração partido.

A palavra do especialista
“Há várias situações que podem propiciar
ao homem a sensação de que tocar a vida é desalentador: rompimento de casamento, doenças crônicas, desemprego prolongado, deterioração econômica. Elas afetam a autoestima, e a vergonha é um ingrediente poderoso para que o homem se fragilize nas questões relacionadas à masculinidade, ou seja, com o que ele acredita que é ‘ser homem’”, diz Luiz Cuschnir, psiquiatra e psicoterapeuta especializado em identidade masculina e feminina. Para se recuperar de problemas como esses, Cuschnir sugere sessões de terapia especializada no gênero masculino. Um exemplo é o Gender Group – grupo de psicoterapia do Instituto de Psicologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. “Ali o paciente é levado a perceber que a construção do masculino se baseia em padrões onipotentes que não condizem com a realidade emocional dele. Isso o leva a recuperar seu potencial afetivo, além de rever o que conquistou, em vez de só olhar para os outros se comparando”, diz o especialista.

 

Rolling Stones

You Can’t Always
Get What You Want

You can’t always get what you want
But if you try sometimes you just might find
You get what you need

Por que você não deu bola?
Deu bola sim. “Você nem sempre pode ter o que quer. Mas,
se tentar de vez em quando, pode achar, e ter o que você quer.”

Por que você precisa ouvir isso direito?
Porque é uma bela música de esperança e superação.

A palavra do especialista
Não precisa ser especialista para entender que, no mundo do consumo desenfreado, em que o “ter” é quase parte de sua personalidade, as pessoas piram atrás de grana, poder, celebridade. Isso não quer dizer que tenhamos que negar essa pressão e ir morar no mato, como faziam os caras nos anos do classic rock. A ideia é ter stamina, força, resiliência para efrentar a pauleira e não baixar a guarda, não arrefecer.
O oposto disto é desistir, é abdicar de sua natureza masculina.
Você certamente não é um desses, a gente sabe disso.

Matéria publicada na Revista Men’s Health de março de 2012.