É científico: juntar os trapos faz bem. Pesquisas apontam que, casado, o homem vive mais. É uma tendência natural do ser humano, torna o sujeito maduro, mais sábio. Mas quando a coisa não dá certo? Fique frio: tem muita gente na mesma situação. Só no ano passado, 213 mil casamentos foram por água abaixo (em contrapartida, quase 4 vezes mais uniões foram registradas). Ok, se deixar a mulher que foi seu sonho de vida um dia já é punk, imagine quando há filhos envolvidos. No Brasil, 120 mil crianças e adolescentes são afetados anualmente pelo divórcio dos pais. Contando os matrimônios não oficializados, cerca de 400 mil filhos passam a ter pais separados. É mole? É duro não só para os filhos, mas para os pais e para todos os que convivem com os estilhaços do que foi a família. Por isso, é preciso a cabeça no lugar para não arruinar a relação com a prole, com os amigos e, claro, com a nova namorada, que ninguém é de ferro. Aqui damos um guia para você ajudar quem precisa. Ou ajudar a si próprio…

Crise e oportunidade

Muita gente enxerga uma separação como uma tragédia, mas a situação está longe de um drama insolúvel. O erro está em imaginar que o fim do casamento significa o fim da família, diz a terapeuta familiar e de casal Lana Harari, de São Paulo. O rompimento, lembra, pode ser a solução para que o relacionamento entre os ex-parceiros recupere o respeito e traga qualidade à relação com os filhos. “É fundamental colocar na cabeça que, ao se divorciar, o homem se torna um ex-marido, não um ex-pai.”

A separação pode até melhorar a parceria pai e filho. O pai separado já não tem toda a obrigação de ser o provedor da casa. “Quando ele deixa de ter que ser o modelo de pai e marido, vai buscar ficar mais perto do filho e acaba redescobrindo a paternidade”, observa Lana Harari.

Isso não quer dizer que o divorciado está liberado da criação dos rebentos, como você vai ver logo mais nesta reportagem. Acontece que o fato de ele passar a ser mais dono do seu tempo alivia a pressão e faz brotar no sujeito mais simpatia pela paternidade.

Tudo às claras

É quase impossível ficar numa boa com os filhos pós-separação sem antes resolver as pendências do casamento que terminou. Aqui vão alguns passos para se garantir paz na terra pós-divórcio:

• Primeiro passo: A ficha deve cair para os dois

O ex-casal precisa maturidade para admitir que, separado, viverá melhor: sem jogar culpa em ninguém, guardar rancores ou viver brigando. “Com a separação, os filhos ganham passaporte para transitar em dois mundos. Se as fronteiras são de guerra, o que poderia significar liberdade acaba se tornando obstáculo para que eles se adaptem à situação”, comenta Lana Harari.

• Segundo passo: Os filhos devem saber das coisas

É importante manter o diálogo com os filhos sem fingir que eles não entendem o que está acontecendo e sem pretender que não sofram. Quanto mais nova a criança, mais fácil é a adaptação com os pais separados, já que sua memória da vida familiar não estava cheia. Para os meninos, o rompimento costuma ser mais doloroso, já que eles geralmente se identificam e têm mais proximidade com o pai, que é quem sai de casa na maioria das vezes.

• Terceiro passo: Ignorar as dúvidas e necessidades dos jovens nessa hora pode custar caro ao desenvolvimento da personalidade deles

De sintomas físicos, como dor de cabeça e vômito, aos emocionais, como raiva, tristeza, medo e culpa, o trauma de uma separação malconduzida também pode gerar nos pequenos dificuldade de relacionamento na juventude e até na idade adulta, lembra a terapeuta.

O novo elemento

É quase certo que uma nova história de amor vai aparecer na vida de um cara separado – e não deve demorar muito, garantem os especialistas, afinal somos bem mais dependentes do sexo oposto do que elas. É do jogo, mesmo que o ex-casal ainda se goste (o que, convenhamos, é a situação mais rara). Quando uma nova namorada entra em cena, é o momento de exercitar seu jogo de cintura e a habilidade de conciliar o novo relacionamento com filhos e ex-mulher sem causar atrito. Mas não se engane:

1) Não queira que a atual companheira seja aceita de cara

No que diz respeito às crianças, que serão sempre leais à família, ela vem significar um elemento ameaçador, aquela que aparece para tomar o lugar da mãe e roubar o carinho do pai – daí possíveis episódios de rebeldia e má-criação em casa. Cabe a você convencê-las, na base do diálogo, de que nada disso vai acontecer. “Também é tarefa do homem impor limites para o comportamento da madrasta, que não pode cometer o erro fatal de querer disputar a atenção dele com os filhos nem dar uma de mãe, dando ordens e tomando conta do espaço comum”, diz Marina Vasconcellos, psicóloga familiar e de casal pela Unifesp. “Para que a convivência dê certo, a mulher atual tem que conquistar a confiança e a amizade dos enteados naturalmente, sem precisar forçar qualquer barra.”

2) Não faça da nova namorada uma nova mãe

Não é porque sua namorada se dá superbem com as crianças e você é meio desajeitado que vale delegar a ela responsabilidades como comprar o presente de aniversário do amiguinho ou ajudar na lição de casa. Não tem nada de errado em fazê-la participar, mas é importante que o filho reconheça que é você quem está no comando e está empenhado em orientá-lo sempre que ele precisar.

Uma recaída com a ex vale a pena

Dependendo das circunstâncias da separação, é bem comum os ex-parceiros continuarem se falando, se encontrando e até dormindo juntos de vez em quando – seja por carência, arrependimento ou intenção de dar uma nova chance ao amor. O problema está em deixar que as crianças assistam a esse revival e acabem ficando confusas. “Tudo o que o filho quer é ver os pais juntos. Se ele está se acostumando com a ideia de vocês separados e volta a vê-los como um casal, vai alimentar expectativas de uma reunião”, alerta a psicóloga e sexóloga Jussania Oliveira, consultora da MH. “Se isso não acontecer, para a criança será um novo rompimento, com ainda mais sofrimento.” Assim, se não existe a certeza de que você e sua ex estão se vendo para reatarem o casamento, o melhor é marcar os encontros longe da vista da criança, como num motel ou na casa de um dos pais que não mora com as crianças.

A guarda dos filhos pode ser sua

Na maioria dos casos – 89,1% dos divórcios em 2007, segundo o IBGE – é a mulher quem fica com a guarda (ou custódia) dos filhos menores. Isso ocorre porque se convencionou que ela está mais preparada para isso – o tal instinto materno… No entanto, há situações em que o juiz decide que é o pai que tem mais capacidade de cuidar dos herdeiros, seja pela condição financeira, social ou psicológica dele. “Trata-se de uma interpretação subjetiva do juiz que cuida do caso, que vai dar preferência ao genitor que consegue atender melhor aos interesses e necessidades do menor”, esclarece o advogado Eduardo Loesch Jorge, especialista em direito de família.

Visitas: seja a quem for dada a guarda, o correto é que o outro genitor ganhe o direito de fazer visitas regulares à criança (geralmente restritas a um fim de semana a cada 15 dias), de passar com ela datas festivas, como aniversário, férias e feriados (desde que acordado perante o juiz) e o dever de pagar pensão alimentícia.

Grana: a contribuição estipulada leva em conta os rendimentos mensais do responsável, comprovados em juízo. Não existe uma tabela padrão, mas é comum o juiz fixar um valor que corresponda a 30% do seu orçamento, a fim de cobrir os gastos com alimentação, saúde, educação, lazer, roupas. Porém, se a quantia passa a onerar o bolso do pai, ele pode pedir que ela seja reduzida de acordo com suas possibilidades. “É bom lembrar que não há nenhuma lei dizendo que é do homem a responsabilidade de bancar pensão”, alerta Eduardo Jorge. “Se ficar provado que a mulher tem recursos, ela terá, sim, que pagar a pensão no caso de a guarda ter ficado com o pai.”

Puxar o carro: nem pense em tirar o corpo fora no caso de a ex-mulher estar saindo com outro cara: isso não elimina sua responsabilidade pelo sustento e pela formação da criança.

Divórcio paz e amor

Pais em pé de guerra pela custódia dos filhos são cada vez mais coisa do passado. Atualmente, o comum é a guarda compartilhada, que prevê a igual divisão das atribuições entre os pais no que diz respeito à educação, à moradia e ao lazer dos filhos: os herdeiros passam a ter duas casas e veem pai e mãe com a mesma frequência. “Essa é a melhor alternativa para a criança, que não sai prejudicada pela ausência de nenhum dos pais e assimila a separação mais facilmente”, afirma a psicóloga Marina Vasconcellos. “Para dar certo, no entanto, na guarda compartilhada é preciso que haja confiança e o consenso de que o bem-estar do filho está em primeiro lugar, afinal os dois têm direitos e deveres exatamente iguais.”

Divórcio pratos na parede

Se o casal for do tipo esquentado, existe a mediação: um recurso independente da Justiça que tem a finalidade de ajudar as partes a entrarem em entendimento. Para fazer uso dela, não é preciso contratar advogado. As partes escolhem uma pessoa (amigo, familiar ou um mediador oficial) para intermediar o acordo e resolver as pendências em uma Câmara de Mediação e Arbitragem. No caso de um dos pais não seguir o que foi acordado por meio do mediador, aí sim o outro pode entrar na Justiça comum para exigir o cumprimento do combinado.

Divórcio dá rugas

É o que demonstrou um estudo americano conduzido com gêmeos, que mostrou que os sujeitos separados pareciam dois anos mais velhos do que os irmãos, fossem esses solteiros, casados ou viúvos. Para Bazhaman Guyuron, do departamento de cirurgia estética do University Hospitals Case Medical Center, o aumento do estresse pós- separação pode ser o motivo do envelhecimento.

Os filhos em primeiro lugar

A ausência da figura masculina pode refletir na personalidade da criança. Sem a presença paterna, os filhos crescem sem uma referência importante de autoridade e podem apresentar dificuldade em respeitar limites. “É possível que tenham problemas de relacionamento e medo de se envolver emocionalmente, porque não tiveram um exemplo em casa de como lidar com isso”, completa Jussania Oliveira.

Da mesma maneira que a falta do pai por perto pode deixar sequelas, o excesso dessa companhia pode significar problemas no futuro. Muitas vezes o homem se sente culpado pela separação e procura compensar a ausência sufocando o filho com sua presença ou simplesmente deixando que ele faça o que bem entende quando estão juntos. Resultado: indisciplina e falta de limites. Portanto, seja um fim de semana por mês ou todos os dias que vocês passam juntos, o importante é que esse tempo seja aproveitado para dar atenção e passar valores à criança, e isso inclui saber dizer não na hora certa. “Uma criança que cresce sem limites encontrará várias dificuldades na vida adulta, destaca a terapeuta familiar Roberta Palermo, colaboradora do site Pai Legal (www.pailegal.net). “Ela se sente amada e segura quando vive em um lar com regras, pois sabe que se preocupam com ela.”

Eles recasam mais

O fato de as mulheres ficarem com a guarda dos filhos na maioria dos casos contribui para que os homens voltem a se casar mais do que elas – e prefiram as mulheres solteiras. 7,1% dos divorciados se unem a solteiras no segundo casamento, enquanto entre as descasadas só 3,7% encontram um par livre de ex .

Fonte: Estatísticas do Registro Civil do IBGE. As dicas dos pais que passaram pela separação

VOCÊ ESTÁ A CAMINHO DO DIVÓRCIO?

Responda sim ou não para as afirmações abaixo e confira se o relacionamento de vocês tem chance de dar certo ou é hora de tirar o time de campo.

1. Posso apontar os principais sonhos e objetivos da minha parceira.

2. Sei quais são as atuais preocupações dela.

3. Posso enumerar as três coisas que mais admiro nela.

4. Eu beijo e faço carinho na minha mulher com frequência.

5. Nossa vida sexual é bastante satisfatória.

6. Fico ansioso para passar meu tempo livre com ela.

7. Minha companheira é uma das minhas melhores amigas.

8. Ela se abre comigo quando teve um dia ruim.

9. Sou sinceramente interessado na opinião dela.

10. Aprendo bastante com minha parceira, mesmo quando discordamos.

11. Minha opinião conta na hora de tomar decisões.

12. Eu sei admitir quando estou errado.

13. Mesmo quando discordamos não perdemos o senso de humor.

14. Minha mulher sabe me consolar quando estou pra baixo.

15. Quando discutimos, a última palavra tem que ser minha.

16. Sei que há questões que nunca vamos resolver.

17. Temos valores parecidos quanto aos papéis de marido e mulher.

18. Nós temos várias lembranças felizes.

Resultado:

11 ou mais SINS: Vocês têm uma relação sólida, com bastante chance de durar até que os dois estejam sem dentes e andando de bengala – o que não deve ser um problema, já que vão estar sempre apaixonados.

De 5 a 10 SINS: Vocês estão num momento crucial do casamento, que tem seu lado bom, mas também suas fraquezas. Parece que é hora de dar folga ao controle remoto e aproveitar juntos o fim de semana.

4 ou menos SINS: O casamento corre sério risco de divórcio. Se isso o amedronta significa que a relação é importante o suficiente para tentar salvá-la. Comece com uma conversa honesta. Se não der jeito, talvez seja uma boa hora de procurar ajuda profissional.