Quem assiste na TV o show de demolição do humorista Rafinha Bastos, um gaúcho debochado, politicamente incorreto, atrevido e dono de uma língua pra lá de afiada, não imagina que o cara, craque do improviso do programa semanal CQC (Custe o Que Custar, Band), possa ajudar alguém a dar um upgrade na vida. Ele pode. Rafinha nunca escreveu um manual de carreira, mas seu sucesso o habilita a dar pitaco sobre planejamento e metas tanto quanto opina sobre as bobagens ditas por políticos e artistas.

Ok, sua acidez ímpar, às vezes destemperada, não é o que poderíamos chamar de o combustível ideal para o sucesso. Mas as ferramentas que fizeram de Rafinha Bastos um dos nomes mais ácidos do humor brasileiro (foi até impedido de participar de uma entrevista coletiva com o prefeito de São Paulo), elas, sim, podem ajudar você a ter não uma verve demolidora, mas visualizar cenários, buscar alternativas, ousar, não arrefecer.

O cara, para começar, não se leva a sério – bem, isso também não está em nenhum manual de carreira. Diante de Rafinha, você pode ingenuamente acreditar que o sucesso venha do acaso e da sorte. Não vem. Nos seus 33 anos, investiu toneladas de planejamento e determinação. Formado em jornalismo, descobriu que queria trabalhar com

televisão ainda em Porto Alegre. Por lá, começou nos bastidores e depois apresentou programas culturais. Seu humor, tímido, era apenas para o espelho. Nunca foi o palhaço da turma. Mas tinha timing e sabia aproveitar silêncios estratégicos para soltar pérolas.

Em 1999, Rafinha deu um pause na televisão e foi atrás de outro sonho: jogar basquete. Por quase dois anos, fez parte do time da Universidade de Nebraska, nos EUA. Freado por uma lesão, voltou. Em 2003, partiu para São Paulo. Tudo poderia acontecer – e aconteceu. Não exatamente como imaginou. Mas aí está uma grande virtude de Rafinha, a habilidade para se adaptar. Queria levar seu humor para a TV, mas, sem chances, partiu para os palcos. Fundou o Clube da Comédia, show de stand-up comedy. “Adequei meus sonhos para não viver uma eterna insatisfação”, diz. Paralelamente, despontou na internet com sátiras de vídeos e, mais tarde, com trechos do seu show A Arte do Insulto. Virou hit no YouTube. E aí a TV teve de engoli-lo.

Rafinha Bastos nunca perdeu o norte, sempre acreditou em si, sempre amarrou os nós, teve paciência, determinação, e soube ser versátil, improvisar. É a inspiração de que você precisava? Pode ser: seu sucesso é tudo, menos piada.

SOBRE SE DAR BEM NA NET
A internet é um mundo livre para você inovar o tempo inteiro. Mas só vai para a frente quem descobrir algo que não existe. Para ter um negócio que realmente marque um território e cresça é preciso apostar onde ninguém está. Não
adianta pegar um projeto que já existe, com a intenção de fazê-lo melhor. Ela é um veículo de novidade, não de
repetição.

SOBRE RIR NO TRABALHO
Infelizmente vivemos com uma seriedade boba dentro das empresas, onde pessoas engraçadas e divertidas não
são levadas a sério. Muita gente acredita que esse lado bem-humorado não convive bem com o bom profissional.
Isso é uma grande bobagem. O sucesso não deve estar ligado à seriedade. Ele também se dá nas relações. Não conseguir se aproximar dos colegas é um fracasso. Os chefes precisam perceber que o humor é uma ótima
ferramenta para melhorar o clima em qualquer ambiente.

SOBRE IMPROVISAR
É no improviso que surge a genialidade. Diante do inesperado, as pessoas dão sinais de capacidade e habilidade. Ao contornar uma situação desfavorável de forma esperta, você se torna mais fresco, mais moderno. No palco, por
exemplo, se um celular toca e consigo fazer uma piada em cima daquele toque, o espetáculo sai ganhando. Tudo que foge do script pode servir a seu favor. Embora o desafio seja grande, é isso que oferece possibilidades, gera motivação, cria estímulos. Às vezes é até bom que as coisas deem errado. Só assim não caímos no automático e aprendemos a nos virar.

SOBRE PERSISTIR
Se você sabe aonde quer chegar, você consegue trabalhar os percalços que surgem no caminho com mais facilidade. Diante de uma meta, é possível focar com afinco. Quando mudei para São Paulo, passei um ano à base de miojo e não sofri com isso. Mas a persistência só sobrevive quando se aprende a comemorar as pequenas vitórias. Ninguém suporta viver uma busca incessante, cheia de frustrações. Você precisa crer que está no caminho certo. Também é importante buscar alternativas dentro do seu objetivo. Se bater na mesma tecla não produzir resultados, tente as teclas do lado.

SOBRE RECEBER CRÍTICAS
O brasileiro se ofende profundamente ao receber uma crítica. Isso é ruim, pouco evoluído. Obviamente você não precisa aceitar 100% do que dizem nem perder sua autenticidade. Mas, se considerar 30% das críticas, você já sai ganhando. Isso vale não só em relação a seu chefe. Preste atenção ao que colegas e subordinados dizem. Talvez você escute coisas duras, mas sempre surgem outras bem úteis.

AS TIRADAS DE RAFINHA

“O ego é um bicho que leva você a lugares que você não deveria ir. Ele pode jogar você para baixo.”

“Suba de uma maneira digna e será admirado até pela concorrência.”

“Rir de si mesmo é genial e aproxima as pessoas. Não abrir esse espaço é extremamente arrogante.”