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Guarde apenas o que for útil
"Mesmo assim, uma memória de longa duração necessariamente não dura toda vida", explica o neurologista Ivan Izquierdo, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. "As memórias que se perdem com mais facilidade são aquelas que nunca são usadas." O passar do tempo compromete nossas lembranças. Por volta dos 50 ou 60 anos elas começam a falhar, e as que vão embora mais rápido são as de curto prazo. Um idoso se recorda de uma canção da infância, mas não de outra que acabou de ouvir. Faz sentido, já que as memórias de longo prazo estão sedimentadas há mais tempo. Mas calma. Não lembrar o nome da nova secretária não significa que você esteja ficando velho. Isso acontece em qualquer idade. "Esquecer um nome que acabou de ser dito, por exemplo, geralmente é pura falta de atenção", afirma Paulo Caramelli, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ou seja, se você não se concentra no que faz, sua memória o trai. Existem exercícios aparentemente esquisitos que ajudam a não se esquecer de detalhes corriqueiros. Na hora de decorar coisas sem associação lógica, como um rosto ou um nome, crie seu próprio caminho. Se o nome for João, busque uma palavra como "avião" ou "rojão" e associe o rosto a ela. "Não use expressões rotineiras, como 'mão'. Elas causam menos impacto e são mais difíceis de lembrar", ensina Alcides da Silva, diretor da Methodus Consultoria, empresa paulistana que oferece cursos para melhorar a capacidade de aprendizagem. Não existe um meio efetivo de medir se a memória vai bem ou mal, exceto em experimentos de laboratório - e você não é cobaia. Mas um indício de que você pode estar exigindo demais do seu cérebro é o famoso branco. Esse lapso pode ser bastante irritante. Não é nada agradável ficar olhando para a cara do seu chefe e não conseguir se lembrar do número estatístico que ele pede, sabendo que está na ponta da língua. Mais uma traição da memória. "No cérebro há 10 bilhões de neurônios interagindo, boa parte deles envolvida no arquivamento de informações. Na hora de recuperar uma informação é preciso reativar a parte certa desse circuito", explica o neurofisiologista Gilberto Fernando Xavier, da Universidade de São Paulo (USP). "Ansiedade, álcool ou simplesmente muita coisa na cabeça ao mesmo tempo fazem com que o cérebro não consiga gerar o padrão de atividade necessário para reativar o circuito correto", diz. Por isso, dar um tempo para você torna sua memória mais eficiente. "Se está exausto e precisa memorizar algo, seja numa aula, seja numa reunião, reserve alguns minutos para relaxar antes. Escolha um método: exercite-se, caminhe, ouça música", ensina o consultor Alcides da Silva. Sua capacidade de reter informações será bem melhor. Não se esqueça disso.
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COMO SE FORMA A MEMÓRIA? |
Digamos que você conhece uma mulher. Seus sentidos absorvem tudo dela: o comprimento do cabelo, o som da voz, o perfume. Seu hipocampo (área do lobo temporal do cérebro) converte esses estímulos externos em memória - todos eles devem passar por esse porteiro mental antes de se enraizar em seu cérebro. Mas o hipocampo é uma área de armazenamento temporário. Depois de formada, a memória é dividida em vários componentes e distribuída pelo cérebro. Mais tarde, quando você pensa na mulher, vê seu rosto ou sente seu perfume, os componentes se juntam novamente. |
| É POSSÍVEL COMPARAR A MEMÓRIA HUMANA À DE UM COMPUTADOR? | Essa comparação serve apenas como analogia, porque os dois têm performances distintas para diferentes trabalhos. "Um computador faz somas bem mais rápido que nós. Mas se você pedir que ele encontre um rosto numa foto cheia de gente, vai demorar muito mais", explica Marco Dimas, professor de ciências da computação da Universidade de São Paulo (USP). Ele lembra outra vantagem da máquina humana: "Alterar a posição de um simples bit pode travar o computador. E há pessoas que sofrem lesões cerebrais que não causam grandes prejuízos à memória". |
| POR QUE MUITAS VEZES DEPOIS DE UM PORRE NÃO NOS LEMBRAMOS DE NADA? | Antes de você memorizar alguma coisa, precisa senti-la e registrála. "Só que o álcool causa uma depressão geral do sistema nervoso central que compromete o nível de atenção e consciência", diz o neurologista Paulo Caramelli. Nesse estado, o cérebro não é capaz de se ligar nas coisas. Muito menos de anotá-las no bloquinho da memória. Às vezes seu nível de atenção fica tão pequeno que nada cura essa amnésia alcoólica. Não adianta os amigos contarem detalhes sobre como você agarrou a mulher mais feia na festa da noite passada que você não vai se lembrar disso, porque essa informação simplesmente não foi computada. Para o bem ou para o mal. |
| POR QUE NÃO ME LEMBRO DE FATOS QUE ACONTECERAM QUANDO EU ERA BEBÊ? | Sua mãe adora contar que, quando pequeno, você tascava beijinhos em todas as coleguinhas do berçário. Mas você, como a imensa maioria das pessoas, não se lembra de praticamente nada do que viveu antes dos 5 ou 6 anos de idade. "Isso acontece porque a memória de longa duração, que nos permite recordar eventos ocorridos há muito tempo, precisa de um amadurecimento mínimo do sistema nervoso", afirma Caramelli. "Nessa fase da vida, o sistema de mielinização, componente importante para a transmissão dos impulsos nervosos, ainda não está pronto." |
| A HIPNOSE FUNCIONA PARA RESGATAR LEMBRANÇAS? | Sim. Só porque você não consegue se recordar de um acontecimento, de um nome ou de um rosto, isso não significa que não esteja mais armazenado no seu cérebro. As informações podem ser recuperadas por meio da hipnose. Fragmentos de lembranças e memórias parciais que o cérebro não reconhece quando você está consciente vêm à tona no estado hipnótico como memórias totalmente formadas. Durante o transe, sua guarda mental fica baixa e você fica sugestionável ao comando do hipnotizador. |
| O QUE É REALMENTE AMNÉSIA? | "É raro um problema de memória ser tão grave a ponto de fazer a pessoa esquecer até seu nome. Essa amnésia, conhecida como retrógrada, geralmente é causada por trauma psicológico", esclarece Paulo Caramelli. Já pancadas na cabeça, tumores, acidentes vasculares, doenças degenerativas (como o mal de Parkinson) e depressão podem provocar outro tipo de amnésia bem mais comum, a anterógrada. É aquela em que a pessoa lembra do passado, mas tem dificuldade de memorizar fatos que ocorrem a partir do momento em que fica doente, segundo o médico. |
| POR QUE A GENTE NUNCA ESQUECE COMO ANDAR DE BICICLETA? | Esse aprendizado aciona duas variedades de memória. Uma explícita, que registra como era a bicicleta, quem ensinou e o lugar. E outra chamada implícita, ou memória de procedimento, que seu corpo usa para aprender a se equilibrar. Anos depois você talvez não lembre daquela experiência, mas toda vez que andava de bicicleta treinava a memória de procedimento, razão pela qual ela costuma ser mais duradoura. "Você nem se dá conta, porque a memória implícita não depende da consciência", esclarece o neurologista. |
| POR QUE SERÁ QUE MINHA ESPOSA NÃO PERDE AS CHAVES COM TANTA FREQÜÊNCIA? | Quando ela jogar na sua cara o quanto você é distraído, diga que é culpa dos hormônios e que ela leva vantagem em relação a isso. O hormônio feminino estrógeno provoca aumento no número de sinapses (contatos entre os neurônios) e o efeito disso seria um incremento na memória. Como as taxas desse hormônio aumentam no organismo feminino em certos períodos (pouco antes da menstruação e durante a gravidez), as mulheres ganham certa dianteira na formação das sinapses. |
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BOTE OS NEURÔNIOS PARA TRABALHAR Conheça algumas atitudes simples que ajudam a melhorar a capacidade de sua memória. >> Durma bem. À noite o cérebro organiza as informações assimiladas ao longo do dia. Um bom sono deixa você mais preparado para receber novas informações no dia seguinte. Deite-se no escuro, em silêncio, e descanse entre sete e nove horas. >> Faça um curso de Japonês. Ou de qualquer outra língua. "Quando você aprende palavras novas, seu cérebro trabalha mais, tanto para armazenar o novo vocabulário como para associá-lo às palavras que você já conhecia", explica Alcides da Silva, diretor da Methodus Consultoria, de São Paulo. >> Coma tomate. A fruta já é bem famosa pelo licopeno, que protege a próstata. Agora, um estudo da Universidade de Kentucky (EUA) revelou que outra substância presente nela, o ácido ferúlico, ajuda a proteger os neurônios. >> Mantenha o coração em dia. Embora tenha pouco mais de 1 quilo e meio, o cérebro consome 20% a 25% da energia do corpo. "Para que chegue oxigênio suficiente ao órgão, todo o sistema circulatório deve funcionar perfeitamente", explica o neurofisiologista Gilberto Fernando Xavier, da USP. Exercitar-se deixa seu coração em ordem e oxigena o cérebro. >> Seja intelectualmente ativo. O cérebro é como um músculo que precisa de treino para se fortalecer. Para estimulálo, vale ler, jogar xadrez ou aprender a tocar um instrumento. >> Evite dietas ricas em gordura. Ela causa um declínio na habilidade de registrar novos fatos, como mostrou um trabalho realizado no Centro Médico VA, em Saint Louis (EUA). >> Não pule refeições. As células nervosas precisam de muita glicose para funcionar. Não tomar o café-da-manhã depois de oito horas de jejum é um erro comum. Com pouco combustível, sua cabeça não guarda nada. >> Conheça sua memória. Algumas pessoas têm mais facilidade em armazenar informações captadas pela visão, outras retêm mais dados por meio de sons. Descubra seu ponto forte e invista nele. |
SETE PECADOS QUE SABOTAM SUA MEMÓRIA O próprio cérebro pode detonar sua habilidade de armazenar informações. Em Os Sete Pecados da Memória (Ed. Rocco, 308 págs.), Daniel L. Schacter, chefe do Departamento de Psicologia da Universidade Harvard (EUA), enumera estes atos de sabotagem. 1 Transitoriedade. O tempo apaga as lembranças, não tem jeito. Experimentos mostram que a memória de um fato (por exemplo, aquilo que você comeu na ceia de Natal) declina mais rapidamente nos três primeiros meses e mais lentamente nos meses seguintes. 2 Distração. É aquele lapso que faz você esquecer onde colocou as chaves. No geral acontece durante atividades rotineiras, que não exigem codificação elaborada. Ou, ainda, quando a atenção está dividida entre duas coisas. 3 Bloqueio. É o tal branco. Há pesquisas que mostram que o bloqueio, na maior parte das vezes, está relacionado a nomes de pessoas. Isso porque os nomes próprios não têm conotação, ou seja, servem para designar uma pessoa, mas não revelam nada sobre as características dos seus portadores. 4 Atribuição errada. Você jura que fez algo que não fez. Ao sair de casa você pensa em trancar o portão. Uma hora mais tarde, não se lembra se realmente o fechou ou apenas imaginou isso. O que acontece nesse caso é uma falha de cimentação, ou seja, no momento em que ocorreu o evento, o dado não ficou bem gravado no cérebro. 5 Sugestionabilidade. Ao contrário das outras falhas, que são freqüentes e apesar de causarem irritação não provocam grandes transtornos, esse pecado pode ter conseqüências mais sérias. Imagine que, durante um interrogatório, um policial faça perguntas que sugestionem a testemunha a achar que viu algo que não viu. Alguns indivíduos são mais sugestionáveis que outros e existe até uma escala para medir isso. Crianças, por exemplo, são altamente sugestionáveis. 6 Distorção. Nossas lembranças do passado são muitas vezes reescritas para se acomodar às nossas opiniões e necessidades presentes. As pessoas que mudam de opinião sobre determinado assunto com o passar do tempo tendem a recordar incorretamente que suas atitudes passadas eram muito parecidas com as do presente. 7 Persistência. Ela faz você lembrar coisas que gostaria de esquecer, como aquela música que não sai da sua cabeça. Mas, muitas vezes, essas memórias estão ligadas a incidentes que carregam grande carga emocional, como o dia em que fazemos algo de que nos envergonhamos muito. |
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