Quando procurou um cardiologista, há oito anos, o empresário paulista Washie Pichinin esperava ouvir que sofria de pressão alta ou que precisava emagrecer. Mas o parecer do médico foi outro. “Os exames mostraram que minha pressão estava quase normal, mas as taxas de açúcar no sangue estavam altíssimas. O pior é que eu não tinha percebido nada”, conta ele. Foi assim, quase por acaso, que Pichinin, de 45 anos, descobriu que estava com diabetes, doença que afeta 230 milhões de pessoas no mundo inteiro e que age silenciosamente no organismo, atingindo cada vez mais homens, mulheres e crianças.

“Uma epidemia de diabetes está em curso”, anuncia a Organização Mundial de Saúde (OMS) em seu website. Ela estima que 366 milhões de pessoas terão diabetes em todo o planeta em 2030. É muito mais do que os médicos esperavam – e quase o triplo do número de casos registrados até 1995, quando 135 milhões de pessoas sofriam desse mal. Por isso, fala-se que os números do diabetes são “epidêmicos”.

Mas por que a incidência da doença aumenta? Antes da resposta, entenda como ela age e por que você precisa se proteger.

Diabetes mellitus é uma condição de saúde caracterizada pelo aumento dos níveis de glicose no sangue. O tipo 1 é menos comum e costuma aparecer na infância ou na adolescência. Nele, o sistema imunológico ataca as células do pâncreas produtoras de insulina por alguma razão desconhecida.








A cada 10 segundos morre alguém no planeta por doenças relacionadas
ao diabetes


Essa substância é um hormônio vital, pois tem a função de conduzir às células a glicose que servirá de combustível para seu metabolismo. Na falta ou diminuição da insulina, esse trabalho é comprometido e os níveis de açúcar no sangue D cam acima do normal, causando danos ao organismo. O tipo 2 é o caso de Pichinin e de 90% dos diabéticos do mundo inteiro, que costumam desenvolver a doença a partir dos 40 anos. Nesse caso, a insulina existe, mas não funciona direito. A conseqüência é a mesma: parte da glicose ingerida continua na corrente sangüínea e fazendo estragos.

As causas do diabetes ainda são um mistério para a ciência, mas se conhece bem o que pode desencadear a doença. Predisposição genética, obesidade e sedentarismo – esse trio é explosivo para a saúde e dá pistas de quem corre risco de ter o tipo 2. E aí também está a resposta para o alto índice de diabéticos no mundo. “A doença é um reG exo de hábitos pouco saudáveis que temos hoje em dia, como falta de exercícios e alimentação desequilibrada”, alerta o médico Alexandre Hohl, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). De fato, peso em excesso e corpo parado têm tudo a ver com diabetes – estima-se que 60% a 90% dos diabéticos do tipo 2 são obesos.


 



INIMIGA SILENCIOSA


A melhor maneira de escapar de uma doença é ficar atento aos sintomas, certo? No caso do diabetes não é tão simples assim. Os sintomas clássicos são: sede exagerada, vontade constante de urinar, fome além do normal, perda de peso e fadiga inexplicável. Porém, em alguns casos, os alertas enviados pelo corpo são muito sutis ou passam despercebidos pelos pacientes. “Eu tinha muita sede, suava em excesso, urinava com freqüência, mas achava tudo isso normal”, lembra Pichinin.

Quando alguém não dá a devida atenção a esses sintomas, o diabetes tem sinal verde para agir. Silenciosamente, vai causando danos ao organismo – pode deteriorar vasos sangüíneos e nervos e, com isso, comprometer o funcionamento de diversos órgãos. Se continuar atuando livremente, com o tempo provoca conseqüências graves, como cegueira, insuficiência renal, infarto do miocárdio e amputações.

Nos homens, um dos efeitos mais sérios do diabetes não controlado é a disfunção erétil, que é a dificuldade ou incapacidade de manter a ereção por muito tempo. Segundo o urologista Aguinaldo Nardi, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, 75% dos homens diabéticos no mundo apresentam o problema. No Brasil os números também são alarmantes: 62% dos pacientes têm algum grau de disfunção erétil. E os prognósticos não são nada bons. “Estima-se que 50% dos homens com diabetes vão ter disfunção erétil após dez anos de diagnóstico”, afirma ele.

O caminho para fugir das estatísticas é detectar a doença o quanto antes. Os especialistas recomendam fazer exames periódicos para quem tem mais de 40 anos, pois a incidência do tipo 2 é maior a partir dessa idade. “Mesmo sem apresentar os sintomas clássicos, se a pessoa passou dos 40, vem ganhando peso, é sedentária e tem casos de diabetes na família, vale a pena fazer um checkup periódico”, recomenda Alexandre Hohl.

Na prática nem sempre é assim. Muita gente costuma esperar as conseqüências do diabetes se manifestarem para só depois procurar o médico. No caso dos homens, é comum eles recorrerem aos consultórios para tratar a disfunção erétil, e só então descobrem que a origem do problema está nos altos níveis de glicose. Por sorte, medicamentos orais podem melhorar a vida sexual dos diabéticos. Mas os remédios não agem sozinhos, e o melhor é não precisar recorrer a eles, detectando a doença o quanto antes e aprendendo a lidar com ela.




MENOS AÇÚCAR, MAIS EXERCÍCIOS


A fórmula para controlar o diabetes é simples e começa com três passos vitais: adotar uma dieta equilibrada, manter o peso na linha e praticar exercícios físicos regularmente. Os diabéticos também precisam monitorar constantemente a glicose no sangue. E, dependendo do caso, é necessário utilizar medicamentos orais ou recorrer à insulina para manter as taxas equilibradas.

Pacientes do tipo 1 precisam de doses diárias de insulina para garantir que o açúcar ingerido por meio dos alimentos entre nas células e sirva de combustível ao corpo. Os do tipo 2, que representam a maioria, nem sempre necessitam da chamada insulinização. Em geral, medicamentos especíícos resolvem o problema, melhorando a ação do hormônio produzido no pâncreas. “Mas, após 10 ou 15 anos de doença, grande porcentagem dos diabéticos do tipo 2 também precisa tomar insulina”, explica o endocrinologista Sérgio Atala Dib, coordenador do Centro de Diabetes da Escola Paulista de Medicina. É aí que muita gente reclama. Afinal, ninguém gosta de receber picadas todo dia. Para acabar com esse desconforto, novos mecanismos de aplicação de insulina, como canetas e inaladores, estão substituindo as tradicionais seringas e ampolas.

Uma dieta saudável também é essencial para quem tem diabetes ou está a um passo do problema (essa condição é chamada de resistência à insulina, quando as células não respondem bem ao hormônio secretado pelo pâncreas e os níveis de açúcar começam a subir). No cardápio diário é importante evitar alimentos que elevam muito a concentração de glicose no sangue (doces) e investir no consumo de verduras, legumes e cereais integrais, que ajudam no controle glicêmico. “O ideal é manter uma dieta com cerca de 50% de carboidratos complexos (encontrados no pão, arroz, feijão e macarrão), 30% de gorduras não-saturadas (carnes vermelhas, queijos amarelos) e 20% de proteínas (encontradas em frangos, peixes e ovos)”, diz Sérgio Atala Dib.

Os cuidados também envolvem atividade física. Em diabéticos do tipo 2, a prática regular de exercícios aumenta a sensibilidade à insulina e ajuda a reduzir os níveis de glicose. É um duplo benefício, sem falar que faz bem para o coração, os pulmões e para o bom funcionamento do corpo. Vale caminhar, correr, nadar e andar de bicicleta, desde que não haja contraindicação do médico (veja quadro abaixo). Por fimm é fundamental controlar o peso e, se for o caso, queimar a gordura em excesso.

Pichinin seguiu todas essas recomendações. Seis meses depois de ser diagnosticado com diabetes do tipo 2, o empresário perdeu 20 quilos. De sedentário, passou a fazer caminhadas e a praticar taichi chuan regularmente. Além da melhora na auto-estima, ele sentiu que sua vida mudou quando adotou os novos hábitos. “Hoje me alimento melhor, tenho mais disposição e sou uma pessoa muito mais saudável do que antes”, diz ele. Os médicos esperam que milhões de outras pessoas façam o mesmo e também aprendam a conviver com o diabetes, o que garantirá maior expectativa de vida a elas. O aposentado Natalício Silva Barão, de 74 anos, é um exemplo. Ele monitora a glicose constantemente, aplica insulina, tem novos hábitos alimentares e faz musculação três vezes por semana. Desde que foi diagnosticado com diabetes do tipo 2, aos 55 anos, não sofreu nenhuma das temidas complicações decorrentes do problema. O segredo? “Percebi que é muito arriscado não se cuidar. Diabetes é uma doença traiçoeira, por isso estou sempre de olho nela”, recomenda.





NOVIDADES NA ÁREA
Caneta, bomba, inalador e um remédio novo chegam para facilitar a rotina dos diabéticos

Cansado das seringas e ampolas? Aplicar doses diárias de insulina é essencial para os diabéticos do tipo 1 e alguns do tipo 2. Veja as alternativas práticas para os cuidados.

>> CANETA DE INSULINA. Leve e discreta, permite regular com precisão a dose aplicada através de uma agulha. Pode ser levada no bolso ou na mochila.

>> BOMBA DE INFUSÃO. Semelhantes a um pager, são carregadas na cintura. A insulina é liberada sob a pele, em dosesprogramadas, atravésde um 2 no cateter.









>> INSULINA INALADA. Para quem odeia picadas, essa novidade promete reduzir ou eliminar de vez esse incômodo. No modelo Exubera, da Pfizer, uma cápsula contendo insulina em pó é colocada dentro de um inalador e é absorvida pela boca. “Mas pessoas com problemas pulmonares crônicos e fumantes não poderão fazer uso da insulina inalada”, alerta o endocrinologista Walter Minicucci, da Sociedade Brasileira de Diabetes.

>> MEDICAMENTO VIA ORAL. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) acaba de aprovar um remédio que ajudará no controle do diabetes de tipo 2. O Januvia, da Merck Sharp Dhome, auxilia o intestino a produzir hormônios chamados incretinas. Quando levadas para o pâncreas pela corrente sangüínea, as incretinas colaboram na fabricação da insulina, hormônio que tem a função de encaminhar a glicose até as células.