É um sábado quente. Você relaxa na cadeira de praia. Ali, na areia, esquece da vida – não lembra nem a que horas comeu pela última vez. Depois de um tempo, levanta para uma espreguiçada. Bate um mal-estar de supetão, acompanhado de tontura, fraqueza, enjoo. Você então mastiga algo, toma um suco e desencana. “Deve ser o calor”, pensa. À noite, ele continua bombando. Você mal chegou à balada e já está suando. Aquele desconforto vertiginoso volta. “Este calor!”, você pensa de novo. Erroneamente. “Um simples mal-estar pode sinalizar disfunções do porte de uma hipertensão arterial”, diz Ítalo Medeiros, médico e diretor do ambulatório de otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas de São Paulo. Não deixe o verão enganar sua saúde. Aqui, listamos problemas que têm sintomas parecidos e comumente confundidos com efeitos do calor. Também contamos o que fazer se sentir algum deles e como se prevenir. Aproveite, sem erro, a temporada mais quente do ano!

LABIRINTOPATIAS

O que é – Problemas – como labirintite, enxaqueca vestibular, cinetose, labirintopatias metabólicas (de glicose, colesterol, hormônios) – causados principalmente por uma deficiência no trabalho do labirinto, órgão da estrutura interna da orelha. Os sintomas mais característicos são variações de forte tontura, vertigem e desequilíbrio do corpo. O labirinto é responsável por sua audição e seu senso de equilíbrio. Ele passa informações ao cérebro, que as une a dados de visão e movimentação, principalmente do pescoço. Este circuito é o que faz você ficar em pé na boa – a não cair, por exemplo, enquanto anda para a frente e vira a cabeça para o lado para admirar as belas curvas da garota que passa.

As causas – Labirintopatias podem ser genéticas. Ou aparecerem de repente devido a condições de saúde – colesterol desregulado, disfunções na tireoide, pressão arterial alta ou baixa e ansiedade – ou fatores como uma brusca mudança de pressão atmosférica (o que rola no avião, por exemplo) e movimentos não habituais oriundos de causa exterior ao corpo (quando você entra, por exemplo, num brinquedo que gira em alta velocidade no parque de diversões).

Sua ação – Sentiu alguns dos sintomas citados? “De pé ou sentado, olhe para um ponto fixo. Isso inibe os reflexos que geram tontura, já que o labirinto sempre toma como referência algo parado”, diz Medeiros. “Quando o mal-estar melhorar vá ao hospital para ter um diagnóstico mais preciso e fazer o tratamento correto.” Quem tem uma labirintopatia de origem genética, por exemplo, deve evitar comidas energéticas, como cafeína e chocolate, que estimulam o labirinto. Já uma labirintopatia como a cinetose pode ser curada com exercícios de reabilitação prescritos por um otorrinolaringologista.

OVERTRAINING

O que é – Um dia você chega pilhado à academia e resolve malhar muito mais que o habitual. “Forçar exageradamente o físico, por bastante tempo e de forma repentina, pode provocar alterações no organismo que pioram seu condicionamento”, diz Carlos Eduardo Negrão, educador físico de São Paulo, diretor da Unidade de Reabilitação Cardiovascular e Fisiologia do Exercício do Instituto do Coração (Incor) e consultor da MH. Você sente fadiga extrema, dor muscular, dorme mal e pode ter arritmia cardíaca, pressão alta, mudanças bruscas de humor – para pior.

As causas – Situações que podem levar você a pegar mais pesado do que o normal na academia, ainda que sem perceber: a disputa silenciosa com o brother que está levantando mais peso que você, a raiva pelo pé na bunda que levou no fim de semana etc.

Sua ação – Controle-se para não cair nas pegadinhas que sua mente aplica em você – domine suas emoções. Se escorregar nessa e fizer o overtraining, passe no fisiologista, para não deixar as consequências virarem problemas maiores. E não malhe no dia seguinte: seu corpo deve se recuperar.

PRESSÃO ALTA

O que é – A pressão sanguínea parte de 120 x 80 mmHg, a medida padrão, para lá de 140 x 90 mmHg. O que significa que suas artérias se enrijeceram mais que o comum ou que o volume do seu sangue aumentou, forçando-as. Pode acontecer de vez em quando. Ou com frequência. A partir dos dois casos, porém, a pessoa tem chance de desenvolver hipertensão arterial – doença crônica: a pressão normal do indivíduo vira 140 x 90 mmHg. Tanto num pico de pressão isolado quanto na hipertensão, os sintomas costumam ser imperceptíveis. Se aparecem, são tontura, dor de cabeça contínua, dor na nuca, zumbido, palpitação. Possíveis consequências: sistema cardiovascular sobrecarregado, doenças renais, infarto.

As causas – Uma é o estresse. “Ele eleva o nível de cortisol e o organismo retém sódio e água: aumenta o volume do sangue e, logo, a pressão dele nas artérias”, explica Marcus Bolivar, cardiologista de Belo Horizonte e presidente do Departamento de Hipertensão da Sociedade Brasileira de Cardiologia. Mais provocadores de pressão alta: genética, sobrepeso, overtraining, má alimentação – principalmente, extrapolar na ingestão de sal – e drinques além da conta. “O álcool leva seu organismo a concentrar toxinas no sangue que, assim, ganha volume.” Mas depois de certo tempo no bar, você pode ter hipoglicemia (veja ao lado) e, em consequência, pressão baixa.

Sua ação – Se nunca teve problema de pressão, fique ligado para não se confundir – os sintomas são similares aos da pressão baixa (veja tópico ao lado) – e tomar providências erradas. Passe na farmácia mais próxima para medir a pressão. Se confirmado que está alta, vá imediatamente ao médico. Para despachar as chances disso: “Mantenha-se no peso ideal, siga uma alimentação balanceada, faça exercícios regularmente”, diz Mário Maranhão, cardiologista de Curitiba, fundador do Instituto Qualivitae e consultor da MH. Tomar duas doses de bebida alcoólica por dia também ajuda: dilata seus vasos sanguíneos e regula a pressão. Marque consulta com o cardiologista para fazer exames uma vez por ano. Ou a cada seis meses caso sua genética favoreça a pressão alta.

HIPOGLICEMIA

O que é – Uma baixa repentina no nível de glicose do sangue – o normal é entre 60 e 100 mg/dl. Responsável pela energia do corpo, glicose é um açúcar que compõe carboidratos – sim, você a obtém pela alimentação. Falta de glicose induz tontura, pressão baixa, tremores, suor excessivo, enjoo, vista embaçada, taquicardia, fraqueza, sonolência, até desmaio.

As causas – Ficar mais de três horas sem comer e abusar do álcool: “O fígado para de extrair glicose dos carboidratos para metabolizar álcool”, explica Luciana Spina, endocrinologista e membro da gerência de programas da Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil do Rio de Janeiro. Malhar com fome também é ruim. “Quando se esforçam demais, seus músculos precisam de mais energia que o de costume.”

Sua ação – Não se deixe engolir pela correria do dia a dia! Nada de entrar naquela reunião sem hora para acabar desprovido de uma barra de cereal. Nem de ir à academia com o estômago roncando. Vacilou e bateu hipoglicemia? “Ponha uma colher (chá) de açúcar sob a língua, ou tome uma bebida isotônica ou ou coma uma bala. São opções que sobem imediatamente o nível de glicose no sangue.”

PRESSÃO BAIXA

O que é – A pressão baixa (90 x 60 mmHg ou menos) não vira doença. É um estado momentâneo, em que a corrente sanguínea não leva quantidade adequada de oxigênio ao cérebro. Aí, a boca seca e bate mal-estar, fraqueza, tontura, confusão mental, visão turva, desmaio.

As causas – O calor é uma. “Sob alta temperatura, você sua mais e os vasos sanguíneos dilatam, o que influencia a queda da pressão”, diz Bolivar. Outras causas: hipoglicemia e desidratação.

Sua ação – Não precisa correr para o médico. Deite deixando as pernas para cima e a cabeça mais baixa que o tronco. “O sangue vai à cabeça”, afirma Bolivar. Beber isotônicos, soro caseiro – um copo d¿água, duas colheres (chá) de açúcar e uma de sal – e sucos naturais também eleva a pressão rapidamente.

Isto, sim, é o calor

Junto do sol forte, ele causa insolação. evite mico na praia

Você curte várias horas de sol ou mormaço. Seu organismo usa a água que tem para hidratar a pele queimada. Mais: “Se a imunidade está baixa, o organismo fica sem força para se adaptar ao calor excessivo: o suor não basta para controlar a temperatura do corpo e você desidrata”, aponta Beni Glinblat, dermatologista do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Isso é insolação: uma desitratação grave que dá tontura, calafrios, dor de cabeça, febre alta.