Responda rápido: qual o primeiro nome que vem à cabeça quando você está com algum problema de saúde? (O segundo, se pensou na sua mãe, ok?) Provavelmente a resposta é o clínico geral.

Quando se trata de cuidar da saúde, tendemos a procurar ajuda apenas quando os sintomas já nos incomodam. Esse hábito questionável transforma um grupo de elite em meros coadjuvantes. Estamos falando de profissionais qualificados que, como detetives, podem investigar os sinais do corpo e ajudar a prevenir doenças, ao invés de apenas tratá-las. Neste esquadrão estão oftalmologistas, farmacêuticos, fisioterapeutas, dentistas e até seu massagista. A melhor estratégia é aproveitar as habilidades de cada um e coletar o maior número possível de informações sobre o seu corpo. E lembre-se: se um desses profissionais detectar uma pista, aí sim você deve procurar seu clínico geral – e algumas vezes um especialista – que pode transformar suspeitas em um diagnóstico com provas irrefutáveis. Pronto para montar uma verdadeira equipe de investigação médica?

Detetive: o dentista
Mesmo que você escove os dentes e use fio dental – os especialistas recomendam –, sua boca ainda pode esconder um problema muito sério: o câncer de boca. Você pode até alegar que nunca fumou (principal causa da doença), mas ainda assim pode correr o risco de desenvolver uma variação causada pelo HPV, vírus transmitido por meio do sexo oral (ou vai dizer que também nunca fez isso?). Então, abra bem a boca para o dentista. “O exame rotineiro da boca feito por um profissional usa a iluminação e os instrumentos adequados  para observar qualquer sinal estranho nas bochechas, gengivas, palato, garganta e língua”, diz  José Eduardo Lima,  professor da Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo, de Bauru.

Osso duro…
Os raios X da boca são uma vitrine do estado geral do seu esqueleto. Estudos relacionaram a densidade mineral óssea da mandíbula de uma pessoa com a da sua coluna e quadril. “O ideal é repetir o exame com um intervalo máximo de cinco anos, para que o dentista possa comparar as amostras. Este é um jeito simples, indolor e economicamente viável de prevenir a osteoporose”, diz José Eduardo Lima. E, antes que você comece a dizer  que o problema é coisa de senhoras idosas, leia isto: um em cada cinco homens vai desenvolver a doença, de acordo com um estudo da Mayo Clinic, nos Estado Unidos. Se detectada cedo, a perda óssea precoce pode ser interrompida e até revertida com treinos e uma dieta rica em cálcio e vitamina D.

Sorriso amarelo
Açúcar em excesso  pode estragar os dentes – pior, levar ao diabetes. Cientistas da Universidade de Columbia (Estados Unidos) conseguiram diagnosticar corretamente o pré-diabetes e o diabetes em 73% dos pacientes de um grupo de estudo ao procurar por uma combinação de problemas na gengiva e ausência de quatro ou mais dentes. O motivo: a glicose elevada é um combustível para as bactérias orais se desenvolverem. Se o dentista disser que sua saúde bucal vai de mal a pior, peça ao clínico para fazer um teste de hemoglobina A1c.

Detetive: o oftalmologista
Você normalmente marca uma consulta com o seu oftalmologista só quando precisa de óculos novos, certo? Mas você sabia que esse especialista pode examinar seu corpo inteiro apenas olhando em seus olhos? “Os olhos são o único lugar no corpo onde podemos examinar diretamente os vasos sanguíneos. Observá-los com cuidado ajuda a identificar  uma infinidade de problemas como a hipertensão, o diabetes e doenças infecciosas”, explica Denise de Freitas, chefe do departamento de oftalmologia da Escola Paulista de Medicina, em São Paulo.

Olhos vermelhos
O exame de vista é uma ferramenta essencial (e indolor) para o diagnóstico precoce do diabetes. A doença pode aparecer como pequenas áreas de hemorragia na retina. “Já vasos sanguíneos irregulares e estreitos são indícios de pressão alta”, diz Denise de Freitas. Pessoas que apresentam vasos estreitos em suas retinas estão 60% mais propensas a desenvolver hipertensão grave nos próximos dez anos, contrário daquelas com vasos mais largos, de acordo com um estudo australiano.

Falta cor
Talvez você veja apenas uma ligeira descoloração, mas o oftalmologista vê algo mais sério. Um arco cinza ou branco em torno de sua córnea – algo mais frequente em homens jovens do que em mulheres – pode indicar níveis elevados de colesterol. Um estudo publicado no American Journal of Ophthalmology (Estados Unidos) revelou que pessoas com níveis elevados de colesterol ruim são 94% mais propensas a desenvolver os arcos ao redor das córneas.

Olhe ao redor
Sua habilidade no futebol não é a única coisa em jogo aqui. Não enxergar bem o que acontece ao redor pode indicar uma bomba-relógio prestes a ser detonada no cérebro. Peça ao médico para realizar um exame para avaliar a visão periférica e detectar tumores que a afetem. Os oftalmologistas também podem suspeitar de câncer no cérebro se detectarem um nervo ótico inchado ao examinarem seus olhos. Os tumores aumentam a pressão do fluido em seu cérebro, empurrando o nervo óptico e causando o inchaço. “Nestes casos, costumamos encaminhar o paciente com urgência para um neurologista”, diz Denise de Freitas.

Detetive: o massagista
Seu massagista está de olho em você. No bom sentido, claro. “As pessoas acham que apenas aliviamos dores musculares, mas somos também treinados para detectar sintomas de problemas maiores, como má postura, que pode gerar dores e até uma hérnia”, diz Fernanda Scovino, coordenadora técnica do spa Espaço Solaris, no Rio de Janeiro.

Manchas suspeitas
Quem diria que uma massagem pode salvar a sua pele? O massagista enxerga suas costas melhor que você mesmo e, por isso, pode ser o primeiro a detectar melanomas, pintas e lesões suspeitas. “O massagista não substitui o exame feito por dermatologista, mas muitas vezes é capaz de detectar as manchas e encaminhar o paciente para um especialista”, explica Fernanda Scovino. Isso vale principalmente se você frequentar sempre a maca do mesmo profissional. “Em pacientes mais assíduos, é comum observarmos uma pinta que não existia no atendimento anterior ou se houve algum aumento ou mudança de coloração”, finaliza.

Detetive: o fisioterapeuta
Vamos imaginar que você machucou o pé na pelada (bate na madeira) e foi ao consultório por causa da dor muscular. Seu encontro com o médico deve durar em torno de 20 minutos, mas a avaliação feita depois pelo fisioterapeuta pode ser três vezes mais demorada. Sem contar que, durante o tratamento, é ele que vai estar com você de duas a três vezes por semana. “A proximidade e o tempo de contato com o paciente são grandes diferenciais do nosso trabalho”, explica Valquíria Santiago, fisioterapeuta e especialista em Fisiologia do Exercício pela Escola Paulista de Medicina, em São Paulo.

Observação minuciosa
Como estão sempre com as mãos no seu corpo (não pense besteira), os fisioterapeutas podem detectar qualquer ligeiro tremor ou rigidez nos braços, pernas ou articulações, sinais precoces do Mal de Parkinson. Distúrbios do sistema nervoso também podem diminuir seus reflexos e reduzir a sua força muscular – e estas mudanças sutis são melhor captadas pelo olhar de um profissional.

Mais rendimento
Fazer fisioterapia talvez não esteja na sua lista de prioridades se você estiver em forma. Mas  poderia. “Independentemente do seu nível de condicionamento físico, sem uma boa postura você pode acabar lesionado”, adverte a fisioterapeuta Jen Lausten, da Tompkins Orthopedic Physical Therapy Services, nos Estados Unidos. A solução? Agende um check-up para avaliar o alinhamento, a força e a flexibilidade do corpo. “A partir daí, o fisioterapeuta pode personalizar uma série de exercícios para reforçar seus pontos fracos. Isso pode colaborar até com os resultados do seu treino”, finaliza Valquíria Santiago.

Detetive: o farmacêutico
O cara do balcão pode fazer mais que vender comprimidos – ele tem ferramentas para evitar doenças. “Os farmacêuticos são  profissionais de saúde acessíveis, e podem oferecer cuidados preventivos”, diz Náira Villas Bôas, diretora de cursos da Associação Brasileira de Farmacêuticos.

Diagnóstico express
Em alguns estabelecimentos, pode-se medir a pressão arterial e verificar os níveis de glicose e de colesterol – serviços autorizados pela Associação Brasileira de Farmacêuticos. Duas vantagens: você não precisa enfrentar a fila do pronto-socorro e recebe os resultados na hora.

Mistura perigosa
O médico prescreveu o remédio, mas o farmacêutico pode ajudar a descobrir se a pereba na boca é efeito colateral ou se a dor de cabeça é resultado de interação medicamentosa. “Muitos pacientes aparecem na farmácia com receitas de especialistas diferentes e que, juntas, podem causar reações”, explica Náira Villas Bôas. Então, se você suspeitar de algo errado depois de tomar uma medicação – comprada com ou sem receita –, ligue já para o farmacêutico. E, quando estiver comprando, não esqueça de informá-lo sobre qualquer alergia e os suplementos e medicamentos que esteja tomando para que ele possa orientá-lo melhor.

5 questões que seu médico não pode resolver para você
Fique atento quando o clínico geral tenta dar uma de especialista

Depressão Um estudo publicado no periódico americano Health Affairs mostrou que clínicos geralmente prescrevem antidepressivos sem o diagnóstico preciso. “Os psiquiatras são mais aptos a monitorar os sintomas de depressão e personalizar o tratamento, com medicamentos ou com terapia”, diz o psiquiatra Michael Peterson, da Universidade de Wisconsin (EUA).

Dor no joelho Uma pesquisa realizada pela Universidade de Utah (EUA) mostrou que os médicos de prontos-socorros utilizaram pouco os raios X para avaliar dores no joelho – causa provável de diagnósticos incorretos. Portanto, a menos que a causa da dor seja óbvia, procure um ortopedista.

Dor nas costas A maioria dos clínicos prescreve analgésicos, mas exercícios é a melhor solução para o problema segundo uma pesquisa japonesa. “Os fisioterapeutas realizam avaliações detalhadas e planejam um tratamento com base nas suas necessidades”, afirma a fisioterapeuta Valquiria Santiago.

Pintas suspeitas Fique de camisa no consultório. “Os clínicos podem recomendar a remoção desnecessária de pintas”, afirma Jessie Cheung, professora-assistente de dermatologia do Centro Médico da Rush University (EUA). “Os dermatologistas conseguem reconhecer melhor os padrões específicos nas pintas e decidir se a biópsia é realmente necessária.”

Problemas de peso Seu médico pode confirmar que você está, de fato, gordo, mas não vai  ajudá-lo a perder a banha – é o que dizem estudos da Universidade do Colorado (EUA). Procure um nutrólogo ou um nutricionista, que vão poder planejar medidas diárias para você perder peso.

Matéria publicada na Revista Men’s Health de janeiro de 2012.